Elza Soares é a dona do fim do mundo

Alguns anos atrás tive a chance de assistir Elza Soares numa gravação da MTV que reunia artistas de diferentes estilos num mesmo palco. Aquilo pra mim já estava sendo o máximo, mas ela roubou a cena. Durante o intervalo alguém da plateia gritou pra que ela cantarolasse a canção Meu Guri, de Chico Buarque. Elza prontamente atendeu ao pedido, silenciando o lugar com sua voz rouca potente, sem qualquer arranjo ou instrumento e fez uma plateia de pouco mais de 200 pessoas chorar. Eu fui um destes.

Outros anos se passaram e agora Elza bate à nossa porta com o lançamento de mais um álbum, desta vez só com composições inéditas. A imprensa já considera o novo trabalho como um “álbum histórico”. Com seus incríveis e bem vividos 78 anos de idade pode-se dizer que Elza continua a brilhar. Merecidamente. São aproximadamente 60 anos de carreira.

São mais de cinquenta discos – o primeiro completamente com faixas inéditas – e lançar A mulher do fim do mundo celebra suas origens. O fim do mundo que Elza canta é a favela. Foi na favela que Elza nasceu e cresceu, e no disco Elza desfila por momentos que remetem à sua própria experiência no morro.

O disco abre com uma voz à capela, que parece que vai falhar. Traz na voz uma dor, um sofrimento. Chega a soar como um último suspiro, mas serve pra deixar a mensagem de que o que ela quer e que a deixem cantar até o final. “Eu sou mulher do fim do mundo… Até o fim eu vou cantar… Eu quero é cantar…. Eu vou cantar até o fim…”.

Em Maria da Vila Matilde Elza braveja que o cabra vai se “arrepender de levantar a mão pra mim” e traça o cenário de uma vingança (merecida) caso ele ousasse ao ato. Pra mim é a melhor faixa do novo disco. Traz uma carga emocional de quem sofreu com a violência doméstica, como tantas e outras Marias deste Brasil. “Quando sua mãe ligar eu capricho no esculacho”. Bravo! É não se calar diante da covardia.

Elza flerta na mistura do samba, com hip-hop, com sons distorcidos que chegam a criar incômodo. Mas é isso que ela quer. Retratar o fim do mundo. Retratar o barulho, a voz daqueles que são oprimidos e encarados de forma tão negligenciada.  “O mundo vai terminar num poço cheio de merda“, profetiza em Luz Vermelha.

A malícia, a malandragem, o grito estridente rouco estão sempre por aí, desenhando o disco. Até os palavrões tão naturalmente soltos poderiam soar como poesia. “Pra fuder, pra fuder, pra fuder, pra fuder….”.

“Traz na carne uma bala perdida”, “debaixo do cimento não tenho pressa“, “almas perdidas navegam o rio“…. Cenários que trazem a realidade que a gente lê no jornal, vê na TV e tampa o olho para o que acontece bem ao nosso lado, ou você vive numa bolha de cristal completamente distante do que a nossa sociedade enfrenta e não é capaz de enxergar?!

O disco termina com uma sequência de Elza à capela e por mais de um minuto um silêncio agonizante em que pode-se ouvir murmúrios da cantora. Ela quer ser ouvida até o fim. E coroa o trabalho que a gente aplaude de pé!

“O que me fez morrer, vai me fazer voltar”! 

Um arrependimento: Por um lapso do destino perdi a estreia do espetáculo desse álbum, aqui em São Paulo, no último final de semana! Arrependimento mata!

Nota: 8,5

P.s Sonhos?! Abraçar a Elza! E agradecer pela coragem de escancarar o fim do mundo.

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