Novo disco de David Bowie é uma constante surpresa

Escrever críticas de discos, músicas, filmes, livros, entre outras obras soa quase que uma futilidade despercebida. Me entristece ver tantas obras boas sendo massacradas porque uma pessoa não curtiu. E incomoda pela repercussão negativa que uma crítica mal feita pode detonar todo um trabalho e as pessoas aceitarem aquilo como uma verdade.

Acredito muito mais na relação pessoal de cada um quando ouve, quando sente as ondas musicais em contato com seu ser e te faz viajar (ou não). E é isso que a gente tenta fazer aqui no Música InsPira. Falar da nossa experiência ao ouvir o disco e não simplesmente falar como se fossemos os maiores entendedores das notas musicais, de produção, de music business… tem um montão de gente por aí que acham que são o rei da cocada. Anyway…

Bowie

A gente abre a seção Review deste ano falando do Blackstar, o novo disco de David Bowie. E falar de Bowie é atirar no próprio pé. Eu me recuso a escrever sobre ele de forma que não seja amistosa. Ele foi, é e sempre será um dos maiores nomes que esse planeta já viu. Sua capacidade intelectual, sua busca pela experiência, sua melancolia aliada à uma elevação de sentidos faz David Bowie ser uma das pessoas mais criativas, ousadas e deliciosas de se ouvir.

Todo mundo conhece o Bowie e sempre vão associar a sua imagem como um ícone do rock. Com Blackstar a palavra de ordem era justamente evitar qualquer elemento rock’n’roll no disco. Li há poucos dias uma matéria sobre Bowie na Rolling Stone americana e um dos produtores do novo disco dizia justamente isso e que para se afastar do rock eles começaram a ouvir Kendrick Lamar.

O disco abre com a faixa título do álbum Blackstar. São quase 10 minutos de música. E é surpreendente. Você ouve a canção e ela vai variando de um jeito que parece que são duas em uma e aí não te chateia, não te faz cansar. Pelo contrário, te leva à um transe. E te faz pisar no desconhecido. Na verdade até são mesmo duas canções compostas e gravadas separadas até sua mixagem que as uniu. Perfeita combinação.

Em ‘Tis a Pity She Was a Whore é a canção que ele liberou no final de 2014. Sem muita novidade mas aqui está ela novamente. Engraçado prestar atenção e ver como ela já apontava uma direção criativa para esse novo trabalho de Bowie. E tá tudo ótimo até aqui.

Se a coisa tava boa, espera chegar em Lazarus. Aí meu coração não aguentou. É uma canção fenomenal. O som do trompete dá um toque especial. Ouvir a canção com fone de ouvido faz a experiência ser ainda mais incrível. E a melhor notícia é que a faixa é o segundo single do disco e deve ser lançado nesta quinta, 07/01, o videoclipe. O que esperar?

Sue (Or in a Season of Crime) é uma mistura. Te faz viajar no tempo, é desafiadora, inquieta. Dependendo do que você beber/fumar pode te dar um barato! haha! Sério. Recomendo cautela. Em Girl Loves Me prepare-se para se surpreender. O vocal chegou a soar como Ozzy Osbourne. Presta atenção se, em alguns momentos, não te faz lembrar do rei das trevas. Bowie parece estar marchando enquanto canta. O ritmo da música flerta com o rap e sons que talvez alguma banda no futuro arrisque a pisar nesse território. Bowie continua sendo um ditador de tendências.

Dollar Days é a balada do disco. Traz o saxofone que dá um brilhantismo especial à canção. Foi a única das faixas que foi composta dentro do estúdio enquanto eles já estavam no processo de gravação das canções. Bowie está com os vocais afiados e a canção vai crescendo. Presta atenção nos sons de fundo e a forma que a música vai tomando e compare o final com o começo da canção. Palmas Bowie. Tá difícil falar mal.

O disco encerra com I Can’t Give Everything Away. É a terceira maior duração do álbum. E das sete apresentadas é a melhor para encerrar o ciclo do disco. O título poderia ser uma referência para aqueles que queriam mais. Eu queria, mas ele tá avisando que não pode dar tudo. E não dê mesmo Bowie. Deixe para o próximo, mas não mate a gente de ansiedade e lança o próximo semana que vem ok? haha! Mas falando sério, essa é aquela faixa que não sabiam onde enfiar e resolveram incluir no disco. É a mais fraca do disco, então não vai ser estranho se você quiser encerrar o disco antes do término dela. Volte ao início do disco mesmo!

Blackstar, o vigésimo quinto álbum do cantor, vai ser oficialmente lançado nesta sexta-feira, dia 08/01, data em que Bowie comemora 69 anos. E ele deve estar bem orgulhoso do trabalho que fez. O semanário inglês NME escreveu que a “formidável capacidade de se reinventar em cada disco continua intacta“.

É um disco que precisa ser digerido. Com calma. Ouvir, repetir, viajar, se surpreender, ouvir de novo, morrer de amores, odiar, experimentar. Porque vai valer a pena. São apenas 07 faixas, mas longas faixas. Ele nunca desaponta. Ou melhor, desaponta sim, já que tem anos que ele se quer faz alguma aparição pública. Show então, nem se fala. 🙁 Bowie, a gente nunca te pediu nada! Volta!

Nota: 90/100

Lançamento: 08/01/2016.

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