Será que “Já É”?

Alguns artistas são tão geniais que não cabem no cenário musical do mundo, e acredita-se que em time que está ganhando… Sei que vocês conseguiram terminar bem esse ditado popular. Mas há um problema quando esses artistas se tornam altamente previsíveis. Para mim, um deles é o Arnaldo Antunes.

Ex-integrante da banda Titãs, o Arnaldo aglomera títulos como os de compositor, músico, poeta, VJ e artista visual, além de ter formado um trio de sucesso ao lado de Marisa Monte e Carlinhos BrownTribalistas. Impossível negar que ele é dono de uma carreira consolidada e do respeito de uma grande parcela dos admiradores (ou não) da música popular brasileira. Como falei acima, há uma genialidade implícita em tudo o que ele faz desde suas rimas aos seus arranjos. Só que fica na gente uma má vontade em escutar um álbum dele, exatamente por tudo parecer muito igual. E falo isso, porque até o que gravam dele soa como algo feito por ele de cara. Querem prova?

 

Nesse momento, estou escutando seu último álbum lançado – Já É, de 2015. E farei uma review sobre o mesmo. Será que estamos preparados pra isso?

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Que os fãs do Arnaldo me consigam me entender e perdoar!

O álbum é o 16º da carreira do cantor, e foi especialmente inspirado em suas viagens e descobertas na Índia, até aí tudo bem, né?  Mas já na faixa que abre o álbum ele traz toda a sua previsibilidade, Põe Fé Que Já É descarta uma explicação para a minha impressão.

 

A viagem à Índia deve fazer com que qualquer pessoa reflita mais nas coisas mais simples e também mais complexas da vida – assim, bem paradoxal mesmo. E isso ficou evidente em várias de suas faixas como: Antes, Naturalmente,Naturalmente, Peraí,Repara (com Marisa Monte), Dança…

Mas não seria Arnaldo Antunes se não viesse uma letra mais trabalhada, mas num sentido clichê desse trabalho: Se Você Nadar.

“Mágoa, os micróbios gostam de água parada. Ninguém vai te libertar dessa roubada se você possui a chave da prisão.”

Então tá, né? Vamos continuar…

A mais legal do álbum não deixa passar despercebida a sua impressão sobre a política nacional. Óbitos é um reggae bem gostoso, mas com uma mensagem crua e sincera sobre o cenário político. Sobre ela, ele falou em entrevista a Revista Trip:


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Óbitos é uma música que quer jogar luz para uma realidade muito específica, muito focada na responsabilidade dos legisladores, dos políticos e das pessoas que estão, de certa forma, gerenciando o futuro de grandes populações através das leis. É uma responsabilidade sobre a vida e morte das pessoas e que é um pouco invisível. Tem gente que não está muito ligado nisso, que pensa que violência é só o que ataca diretamente… Mas não, existe uma realidade cruel por trás do que se legisla. Faz tempo que queria falar desse assunto, então veio essa melodia do Péricles que, por ser um reggae de raiz, tem essa tradição de falar de uma maneira contundente da realidade social.”

O Metereologista e Na Fissura aparecem em seguida como um resto de qualquer trabalho de sua banda antiga Titãs. Chata!  Saudade Farta e As Estrelas Sabem remetem ao amor do jeito Arnaldo de ser: estranho. Não que o amor não seja estranho, é só uma forma de defini-lo aqui. Azul e Prateado e As Estrelas Cadentes devem ter sido resultado de um fixo olhar nos céus e mares dessas viagens. Ele viajou mesmo!

E no final do álbum, fica um convite para dormir. A sequência de Só Solidão e Aqui Onde Está parece um mantra. Acalma e adormece.

Fui…

55/100