Por que os ingressos de shows são tão caros?

Por que os ingressos de shows são tao caros

Não é de hoje que a gente vê reclamações (e também reclama) do preços de ingressos para ver aquela banda ou artista que curtimos, mas por que os ingressos de shows são tão caros?

Vou deixar a minha face como amante de música de lado e assumir o meu papel profissional de produtor de eventos, que atua há dez anos no mercado corporativo e também no entretenimento, para tentar explicar o que faz o preço dos ingressos serem tão altos e, muitas vezes, inacessíveis para grande parte das pessoas.

A indústria que gira em torno da produção de um show pode ser gigantesca, dependendo do nicho que tal artista está inserido e do tamanho da sua popularidade. Quanto mais conhecido ele for, maior o interesse das pessoas em assistir ao seu espetáculo, e a lei da oferta e demanda é aplicada em todo o seu esplendor. Quanto maior a procura por um “produto” – sim, a música é um produto, ninguém vive só pela arte – maior será o preço cobrado por ele.

O MUSIC BUSINESS NA REALIDADE ATUAL

O music business por muitos anos ganhou rios de dinheiro através da vendagem de álbuns. As turnês serviam, em grande maioria das vezes, apenas como uma atividade promocional para divulgar aquele lançamento. Os músicos “caiam” na estrada e suas vidas eram constantemente associadas à drogas, bebidas e escândalos – quem nunca ouviu histórias de músicos que foram expulsos de hotéis após causarem transtorno a outros hóspedes e terem danificado quartos?

Mas os tempos mudaram. Não se ganha mais dinheiro com a vendagem de álbuns – pelo menos não como antes – e as turnês passaram a ser o principal “ganha-pão” nessa indústria bilionária, junto com licenciamento de produtos e campanhas publicitárias. Sendo assim, observe que pouco se ouve sobre situações embaraçosas com artistas durante as suas turnês sejam overdoses ou outros transtornos que colocavam em risco o prosseguimento dos seus shows… afinal, nenhuma ressaca, tampouco a moral, vale a cara maravilhosa que tal artista precisa estampar em uma maratona extensa de apresentações  seguintes ao ocorrido.

Não há tempo para confusão, apesar dela continuar por aí (casos como da morte de Amy Winehouse, Mac Miller e Chester Bennington, as internações de Demi Lovato estão aí para comprovar) mas em proporções mais moderadas.. O mercado evoluiu e se profissionalizou bastante, ainda bem. E os músicos compreenderam que o seu bem estar físico e emocional são as principais chaves para que essa indústria e sua engrenagem funcionem da melhor maneira, já que milhares de pessoas sobrevivem dela. Sem turnê, sem dinheiro. Como é que fica? 

Sex Pistols - Sid Vicious
EXAGEROS: Sid Vicious, do Sex Pistols, tinha uma carreira espetacular pela frente, mas perdeu na luta contra as drogas. Artistas punks, quase sempre, foram associados à drogas e confusões intermináveis.

 

O planejamento de uma turnê começa muito antes do que se pode imaginar. Em média, dois anos antes do início da sua realização. As carreiras dos artistas são minuciosamente organizadas com o objetivo claro de rentabilizar o máximo possível.

O lançamento de um disco ainda serve como base fundamental para todo o escopo do trabalho. Qual a imagem que o artista quer transmitir a partir daquele álbum? Qual a persona que ele vai assumir? Quais serão suas prioridades para a divulgação deste novo material? Que lugares ele gostaria de visitar? Onde suas músicas tem conquistado maior público? Qual o nível de interesse em torno desse artista? Está envolvido em polêmicas? Eu poderia facilmente elencar aqui uma lista interminável de fatores que são levados em consideração no planejamento de uma carreira musical. Mas vou tentar me ater ao assunto principal deste artigo: por que os shows são tão caros?

Para entender os reais motivos dessa super valorização que temos visto, eu precisava trazer essa breve contextualização para que fique claro que a música é um produto e que há uma infinidade de variáveis que contribuem para o que a indústria é hoje e que irão impactar no preço dos ingressos.

A partir do mapeamento de prioridades, do interesse do próprio artista e de onde há demanda para suas apresentações, agentes, empresários e tour manager se organizam para criar o conceito criativo da turnê. Boa parte dos artistas e bandas hoje trabalham desta forma. O conceito, normalmente, é uma consequência da imagem e do filtro criativo que o artista vai trabalhar no seu novo trabalho, no seu novo disco. A partir disso, é feito todo o cálculo financeiro que envolve tal produção. Iluminador, técnicos de PA, dançarinos, camareiros, músicos, roadies, produtores, stage manager, gastos com figurinos, salas de ensaio, produção de vídeos, community manager para as redes sociais, são só alguns exemplos do que precisa ser considerado. Como disse anteriormente, é uma indústria gigantesca e que precisa se sustentar de alguma forma. Muitas destas contratações tem seus custos diluídos conforme a quantidade de shows que aquela turnê terá no seu roteiro.

OS CUSTOS POR TRÁS DE UM SHOW

Imaginem que iremos contratar um show de algum gringo para ser realizado aqui no Brasil. O primeiro passo é contatar a agência de booking que é responsável pela venda do show de um artista. O que muita gente – talvez a grande maioria – não saiba é que nenhum artista tem seus cachês fixos de forma tão aberta. Sabe a lei da demanda e oferta? Rola aqui.

Você não pergunta ao agente quanto custa o cachê daquele artista ou banda, você faz uma oferta, um lance – como um leilão – e ele tem a liberdade para decidir se aceita ou não. Para fazer um lance, você precisa encaminhar uma série de informações referente a realização daquele show que vão desde dados básicos como qual o local escolhido, qual a sugestão de preço dos ingressos e possíveis receitas com venda de bebidas, por exemplo. Dependendo da negociação, o artista leva pra casa uma porcentagem do que foi arrecadado em venda nos bares do show. Se há patrocínios, transmissão para TV/internet, gastos com publicidade, quem banca os gastos com transporte, alimentação, vistos, hospedagem… tudo precisa ser informado neste momento. A riqueza de detalhes vai ajudar o agente a tomar uma decisão com mais assertividade, além de mostrar o amadurecimento e profissionalismo de quem está fazendo o possível para contratá-lo.

Se mais de uma produtora de shows está interessada em trazer aquele artista pra cá, o leilão é ainda mais concorrido e o agente tem na mão o poder para negociar e, muitas vezes, elevar consideravelmente o cachê. Afinal, se estão disputando, vamos então ficar com o que oferece o valor mais alto. Lembra o que mencionei antes? A música é um negócio e não sobrevive somente pelo romantismo da sua arte. O mundo é capitalista. Você faria diferente? Aposto que não.

Além do artista – que recebe um adiantamento e também pode ter um extra com percentual em cima do arrecadado com bilheteria, há uma série de contratações que o produtor do show precisa realizar: aluguel da venue (local onde será o show), segurança, bombeiros, controladores de acesso, equipe médica, advogado para os trâmites legais, produtores, limpeza, carregadores, equipamentos de luz, efeitos especiais, pirotecnia, plataformas móveis, som, geradores, rádios de comunicação, ticketeira (empresa responsável pela venda dos ingressos), assessoria de imprensa, equipe de promoção, material gráfico, fotógrafo, equipe de vídeo, gastos com cenários, telas, despesas com exigências do artista para o camarim.

Ainda é preciso considerar o custo dos ingressos que são distribuídos para patrocinadores, parceiros e convidados. E, claro, os polêmicos tickets direcionados àqueles que tem direito à meia-entrada. A lei determina que 40% dos ingressos colocados à venda, sejam enquadrados nesta cota e vendidos coom preço de 50% referente ao ingresso da categoria “inteira”. 

U2 - 360 Tour - Stage
GRANDES ESTRUTURAS: O U2 rodou há alguns anos com o grandioso palco da 360 Tour – a montagem do palco impacta diretamente no preço dos ingressos.

No âmbito legal, temos as taxas a serem pagas para o ECAD (que trabalha com uma % sobre a venda dos ingressos), tributos de ISS pagos à Prefeitura do local onde o show é realizado (que também é baseada numa % sobre os tickets vendidos), alvará para a realização do evento, atestados de responsabilidade técnica – documentos assinados por engenheiros e arquitetos que atestam a segurança de alguma construção, por exemplo, palco, estruturas de som e de luz. Há também as taxas decorrentes das transações com cartão de crédito pagas às administradoras de cartão quando a venda dos ingressos é feita por meio desta forma de pagamento (ou seja: todas, né?).

O produtor precisa contratar um seguro de responsabilidade civil para garantir cobertura em caso de algum acidente ou até mesmo em caso de mortes durante o show. Tem também o seguro “no show”, caso o artista desapareça ou resolva não realizar o show. Como o produtor pode ressarcir quem pagou os ingressos?

Quando o evento tem grandes proporções, por exemplo, aqueles que rolam em estádios, ainda há gastos com a Companhia de Engenharia de Tráfego que vão desde as faixas que são colocadas nas ruas para aviso de bloqueio de trânsito até mesmo o número de agentes de trânsito que serão deslocados para auxiliar o fluxo daquela área. Sim, amigos, tudo isso é cobrado do produtor. Sabe o efetivo da Polícia Militar que também está lá? O produtor também tem que pagar e é um item obrigatório. Não tem como fugir, sob o risco de multa e até de interdição do evento quando há um contingente de público formando grande aglomeração. Todo cuidado é necessário para garantir a segurança para o público.

Faltou ainda um item importante: o contratante também quer ganhar o seu nessa fatia. Então considere aí uma parte como fee, mesmo que ele seja o último a ver a cor do dinheiro – quando vê. Algumas vezes, os produtores podem não levar nada e ainda ficar com algum prejuízo. Tá cheio de casos no mercado. Aí você se pergunta: por que então produzir um show se você pode ficar no vermelho? Cada um tem o seu motivo, mas o mais aceitável é posicionamento de mercado. O produtor pode ganhar visibilidade e conseguir contratos mais rentáveis em futuros shows ou mesmo tentar evitar que o seu concorrente avance no mercado. Tem de tudo, pode acreditar.

REUNION É UM BOM NEGÓCIO: nova turnê das Spice Girls teve 700 mil ingressos vendidos nas primeiras horas que foram colocados à venda, em novembro passado.

O real preço dos ingressos

Se um artista que já não está mais no mercado resolve voltar para uma turnê comemorativa, ele pode jogar os valores lá no alto. Longe dos palcos há pouco mais de doze anos, as inglesas das Spice Girls, irão realizar 14 shows entre maio e junho deste ano, entre Irlanda e o Reino Unido. Para muitos pode ser a única oportunidade para vê-las no palco e desembolsar um pouco a mais para ter essa experiência pode ser considerado como um investimento e não uma despesa pelos seus fãs. Os ingressos para a Spice World Tour estavam à venda entre 77 e 291 libras, algo em torno de R$ 425 e R$ 1600, respectivamente. Nas primeiras horas que foram disponibilizados, mais de 700 mil ingressos foram vendidos para os shows que irão acontecer em estádios, como o lendário Wembley que receberá três shows da girl band.

Outros astros da música elevam o preço do seus ingressos justamente por entender que não fazem mais grana com a venda de álbuns. Comercialmente são poucos aqueles que conseguem esse feito e, normalmente, concentram-se entre os artistas favoritos dos jovens como Taylor Swift e Ariana Grande. Por esta razão, os veteranos conseguem barganhar com quem contrata seus shows por conta do histórico e da sua relevância no cenário musical. Rolling Stones, Elton John e Madonna são conhecidos pelos preços astronômicos, mas que sempre encontram fãs dispostos a pagar as altas cifras e, quase sempre, esgotam as entradas para suas apresentações.

A febre e o modismo são outros fatores que alavancam o valor. As maiores estrelas globais do momento são os meninos do grupo coreano BTS. Eles se apresentam em São Paulo, em maio, com dois shows agendados no estádio Allianz Park e os ingressos chegam a custar R$ 950.

Você pode estar se perguntando, como é que tem gente que desembolsa um salário mínimo para ver uma apresentação que dura, em média, 90 minutos. A resposta pode estar na fila que já está sendo formada na porta do estádio cerca de 80 dias antes do show e vale pontuar que a venda começou nesta segunda-feira (11) e os ingressos para a primeira apresentação esgotaram em poucas horas. 50 mil ingressos desapareceram num piscar de olhos. Um novo show foi anunciado na tarde desta segunda e os ingressos podem ser comprados a partir desta quarta-feira (13).

BTS no Brasil
FEBRE MUNDIAL: os meninos do BTS fazem apresentação única no Brasil, em maio. Já há fila na porta do Allianz Park, em São Paulo – mais de 80 dias antes do show.

Rola no primeiro final de semana de abril, o festival Lollapalooza que chega à sua oitava edição no Brasil. Entre os dias 5 e 7 do próximo mês atrações como Kendrick Lamar, Post Malone, Sam Smith e Arctic Monkeys se revezam para uma plateia que chega a atingir 90 mil pessoas por dia. O bilhete que dá acesso aos três dias de festival e também acesso ao lounge que oferece alguns serviços está no 2o lote e pode ser comprado a incríveis R$ 3450.

A contratação da equipe fixa de um artista que o acompanha em turnê, mais aqueles que são contratados no local da realização do show são determinantes para a definição dos valores praticados pelos produtores de shows. Em 2012, durante a MDNA Tour, Madonna viajou o mundo com uma equipe permanente de mais de 200 pessoas! Claro que isso é uma realidade para estrelas do calibre dela, mas é importante pensarmos que há muita gente envolvida para que aqueles 90 minutos sejam de entrega excepcional para os seus fãs.

O LIVRE ARBÍTRIO e a resposta do pÚBLICO

O alto preço dos ingressos tem sido surreal, é fato. No mundo capitalista há diversas técnicas de vendas que apelam ao seu lado emocional e fazem com que você compre aquela entrada para determinado show com o sentimento da escassez, criando o pensamento de que você não pode perder aquele evento pois trata-se de uma oportunidade única e inesquecível.

Para a sociedade presa no mundo das redes sociais, chega a ser um caso de honra ir nos shows e postar vídeos e fotos apenas para reforçar que você estava lá. Status conta. Uma boa leva de pessoas acreditam que estar no show te faz especial, cool, descolado.

Muitas compras são feitas por impulso, fazendo com que muita gente comprometa seu orçamento com despesas desta natureza. Mas é assim que o mundo é. Não dá para brigar contra uma máquina que movimenta e emprega milhares de pessoas.Vale lembrar que sempre há a opção de não comprar, só que você também corre o risco de nunca mais ver aquele ídolo no palco. Vale o risco?

Rihanna Preço dos Ingressos - shows
ENCALHADOS: Os ingressos para o primeiro show de Rihanna, em São Paulo, em 2011, encalharam e foram vendidos em sites como Peixe Urbano e Groupon, pela metade do preço.

Mas nem sempre o público está disposto a encarar alguns preços. Diversos shows tem seus ingressos encalhados. Já tivemos exemplos diversos de shows que tiveram seus ingressos disponilizados até em sites de venda coletiva, oferecendo descontos de 50, 70% do valor original.

O Lollapalooza deste ano tem encontrado dificuldades com a comercialização dos seus mais de 250 mil ingressos que foram colocados à venda. Enquanto em outras edições, os ingressos foram vendidos em lotes concorridos, a versão 2019 tem mantido o preço dos ingressos o mesmo, desde que o segundo lote chegou ao mercado, na primeira quinzena de dezembro. Até os ingressos sociais – que oferecem um desconto de 50% do valor da inteira mediante a uma contribuição ao Criança Esperança – estão encalhados e a T4F, produtora do festival, prorrogou a venda destes ingressos de 31/12/2018 para 15/03/2019. Sinal dos tempos?

Por falar em T4F, ela criou há alguns anos, uma promoção para desovar os ingressos encalhados. Toda quinta-feira é possível comprar, através do site da Tickets For Fun, dois ingressos pagando apenas um daqueles shows que estão com alguma dificuldade para serem aceitos pelo público. Vale ficar de olho pois até veteranos da música já tiveram suas entradas vendidas desta forma.

Ceder aos preços dos ingressos é uma questão de escolha. Ninguém tá te obrigando a comprar, mas depois não vá se arrepender. Pode ser sua última chance.