Djonga, Ladrão e o disco que definiu o RAP em 2019

Djonga Ladrão

Felizmente o Brasil tem ganhado artistas incríveis nos últimos anos e Djonga faz parte de uma geração que só tem do que se orgulhar. Seus trabalhos são sempre muito bem elogiados pela crítica e pelo público e Ladrão, seu terceiro disco veio coroar uma década e tanto para o rapper.

DJONGA, O NOME DO RAP

Se tivéssemos o poder de avançar no tempo e olhar para trás, pra 2019, seria impossível deixar Djonga passar despercebido e não dar créditos à sua influência na música nacional, mesmo que correndo às margens do mainstream.

Natural de Minas Gerais, Djonga  é bem conhecido no cenário alternativo do rap brasileiro, principalmente após o elogiadíssimo O Menino Que Queria Ser Deus, seu disco de 2018. Agora com Ladrão ele atinge novos níveis em um momento em que o artista precisa cada vez menos do mainstream pra se tornar influente, importante e conhecido.

Por meio de 10 faixas o artista expõe ideias e pensamentos importantíssimos que sim, vem causando reflexões em quem separa 40 minutos de sua vida pra apreciar sua obra. Ele é direto, conciso, curto e grosso. E isso é cada vez mais raro nos discos nacionais que tem sido lançados nos últimos anos. Estamos anestesiados, em estado vegetativo, sem nada a dizer?

Outro detalhe de destaque – ao menos hoje em dia – é que Djonga não se preocupa com a duração das faixas, tática recorrente em época que o streaming é quem dita quem faz ou não sucesso. Suas ideias são jogadas e utilizadas a cada segundo. A cada audição, uma impressão diferente.

ladrÃO faixa a faixa

Djonga já se auto definiu como o melhor rapper nacional da atualidade. Embora aparente ser uma certa prepotência, Djonga está correto. Mesmo tendo discos ótimos de Baco Exú Do Blues ou Felipe Ret, Djonga prova cada vez ser um artista excepcional. Uma sequência excelente de 3 discos é referenciada em sua primeira faixa de Ladrão.

Hard-Trick é uma expressão usada quando um jogador, no futebol, marca 3 vezes. Na Fórmula 1 é utilizado quando o piloto faz a volta mais rápida, é pole postion (larga em #1) e ainda vence a prova em questão. No rap, mais precisamente no rap de Djonga, é quando o artista acerta em cheio pela terceira vez seguida em sua discografia. Além disso, determinando o andamento do disco, a faixa já começa com Djonga soltando seus versos, sem introdução, sem meio tempo.

O que vale mais, um jovem negro ou uma grama de pó? Por enquanto ninguém responde e morre uma pá“. É questionando assim que ele inicia a faixa seguinte, Benédando sequência em mais uma faixa explosiva, direta e reflexiva.

Fugindo um pouco de debates sociais, de temas onipresentes em suas letras, Djonga chega a poética e romântica Leal. Com referências que vão de Queen Latifah Katy Perry, a canção se torna um poema romântico sem pudores ou censuras, é compreensível e verosímil.

É em Deus E O Diabo Na Terra do Sol que Djonga parece atingir um outro patamar, ainda mais alto sobre suas próprias ideias em uma clara referência a obra clássica de Glauber Rocha, de 1964. É uma canção onde seus versos misturam amor, dedicação, luta e sonhos. Provavelmente a faixa mais inspiradora do álbum e que merece ser apreciada como tal. E  tem a participação interessante de Felipe Ret cantando os versos finais da música.

Talvez Tipo seja a faixa de Ladrão que menos agradou. Com vocais de Mc Kaio, ainda pouco conhecido, traz claras referências ao funk carioca, um dos gêneros que mais influenciam o rapper em seus trabalhos e que mais esteve presente em sua vida. É um pouco genérica.

E mais e mais referências agora na sexta faixa,. Em Ladrãoa faixa que dá título ao disco é também a que exemplifica seu conceito. Robin Hood é um ladrão que rouba dos ricos para distribuir aos pobres, Djonga é o rapper que quer retomar tudo aquilo que foi tirado de seu povo e redistribuir aos seus.

O título de melhor faixa da disco vai pra Bença, onde Djonga escreve uma carta inspiradora, sincera e forte para sua avó, grande influência para sua vida e carreira. Ela ainda aparece na canção deixando uma oração profunda e pedidos de bençãos à seu neto.

Na faixa seguinte, podemos dizer que é o ponto principal do disco. É aqui, em Voz, que Djonga, Doug Now Chris MC, refletem sobre o ponto onde estão hoje: sendo homens negros, rappers, de origem humilde, que são marginalizados pela sociedade sendo excluídos. Porém, em relação a muitos homens negros que, por algum motivo, ainda estão na batalha de chegar ao mesmo patamar, Djonga e seus colegas se tornam privilegiados e é aí que está o ponto alto da música.

Chegamos à penúltima música com a crua MLK 4TR3VID0 que referencia Moleque Atrevido, do sambista Jorge Aragão. Aqui Djonga mostra que está onde está por merecimento, talento e dever. Por fim, Falcão, a música que encerra o álbum é um apanhado do que rapper passou pelos últimos meses, um pequeno resumo do que é o disco Ladrão e ainda faz algumas críticas ao cenário atual do rap brasileiro que tem andado, segundo o que conta, desunido, onde o dinheiro e poder é o que manda.

O veredito

Ladrão expõe a nós, a quem acompanha ou não, como anda o cenário do rap brasileiro nesses últimos anos. É muito seguro dizer que desde Racionais MC’s e o Planet Hemp (que por sinal vem ensaiando um retorno) a música nacional não vivia uma fase tão boa quanto atualmente.

Djonga é a prova viva disso e Ladrão, como sua obra prima, é o resultado. É conciso, direto, excelente e está na nossa lista de melhores álbuns lançados em 2019!

Ouça: